domingo, 21 de maio de 2017

Vinte e nove: A natureza que atravessa o meu caminho

Uma das coisas que mais me deixam contente no meu dia a dia é encontrar a natureza que margeia o meu caminho.
Todos os dias, saio de casa e olho para a lua que se despede de mais um dia de trabalho e dá um aperto de mão no sol, pronto para iluminar o dia em recomeço. Desde esse momento, a sensação calorosa no meu coração explode, pois tenho a certeza de que a natureza se abrirá para os meus olhos ao longo do dia. E isso se faz verdade toda semana.
No caminho até a minha universidade, olho pela janela do transporte publico abarrotado da capital de São Paulo e não vejo a poluição, não vejo os problemas de mobilidade, não vejo o cinza do concreto reinante mais. Vejo os raios solares apontando no horizonte, ouço o som longínquo de algum pássaro bravo que sobrevive em uma selva diferente, vejo as nuvens se transformando em formas que apenas nossa imaginação consegue distinguir.
Então, chego ao meu destino e, ah, não há palavras na flor mais jovem do lácio que sejam capazes de descrever a incrível sensação que eu tenho com a natureza que ambienta a minha universidade!
Existem árvores de diferentes tipos que sombreiam o caminho. Dentre elas, árvores que dão flores multicoloridas, árvores gigantes que possuem raízes sobressalentes, árvores pequeninas que servem para passarmos a mão e sentirmos minúsculas folhinhas roçando nossa pele. As que gosto mais são os pinheiros que enchem o solo com tapetes espinhosos de pinhas. Trago para a minha casa essas pequenas lembranças que os pinheiros emitem, pinhas de vários tamanhos, que envernizo e enfeito a minha estante, tornando o meu quarto mais aconchegante.
As flores, fotogênicas flores, colorem os dias que parecem cinzentos com o ar da manhã. Além de modelarem perfeitamente para a minha câmera, atraem para o ambiente universitário insetos polinizadores que enchem o ar com sons maravilhosos.
Não só existem insetos pelo meu caminho, não. Há animais por lá, pássaros, mamíferos e répteis. Existem capivaras perto do lago que corta o campus. Existem lagartos que arrepiam os transeuntes desavisados que correm para almoçar antes do meio dia. Existem pássaros, mil e um pássaros, que moram nas árvores e encantam com seus cantos diversos. Os pássaros, unidos, fogem também do predador gavião que plaina acima das copas.
O chão é rico em natureza. Flores, folhas secas, folhas recém caídas das árvores, formigas, besouros, frutas maduras. Piso e me sinto bem. Piso e me sinto em contato com um ambiente tão distinto do que se esperava encontrar em São Paulo. Piso, piso, piso.
Olho para cima e o sol aquece o meu rosto. É uma sensação maravilhosa.
A natureza que atravessa o meu caminho.

sábado, 6 de maio de 2017

Vinte e oito: Mensagem de retorno ao retorno de vocês

Ilustração Two Bad Mice

Bonjour, mes amis!
Nos capítulos anteriores do La Petite Souris, eu mergulhei em um mar de contos particulares que mostrei a vocês no nosso jardim secreto. Estava em um bom momento de escrita criativa adicionada com tempo para escrever, o que me deixou empolgada e muito contente por fazer algo que eu adoro de paixão.
O retorno de vocês, meus amigos, foi um gás extra para mim! Ah, nunca imaginei que um dia um blog meu teria tanto retorno de leitores! Isso me deixa animada, motivada e realizada, portanto, peço que sempre que puderem, comentem nos capítulos, por favor.
Enfim, como vocês gostaram dos meus contos, prometo que escreverei sempre eles por aqui. O dia para sair contos será as quintas-feiras, o meio da semana que também é o meio entre sábado e terça-feira, os dias em que saem novos capítulos por aqui.
Então, não percam, ein?
Obrigada por tudo, meus leitores queridos.
Desejo um dia mágico a vocês com muito amor e paz.
Beijos açucarados.

terça-feira, 2 de maio de 2017

Vinte e sete: Primeiro de Maio

Os seus pensamentos eram revolucionários.
Tinha 19. Tinha roupas de marca surradas pelo tempo. Tinha um cabelo cheio, tinha uma barba por fazer. Tinha um quarto no segundo andar do apartamento de seus pais.
O seu quarto era grande. Um guarda-roupa cheio de camisetas xadrez e calças jeans. Uma cama de casal com lençol azul royal. Na cabeceira, Marx, García Marquez, Pagu. No som, ao lado, o play reavivaria a voz de Renato Russo. Ele era tão jovem.
Uma estante cobria a parede a frente de sua cama. O peso dos livros curvava as placas brancas de madeira da estrutura. Fazia faculdade, passava mais tempo no grêmio lutando por seus ideais. A estante possuía livros que queria esquecer, mas não queria se desfazer, Hemingway, Disney, Barrie.
Tinha um videogame. Tinha dois meses de francês, inglês na cabeça, português na alma. Tinha porta-retratos com fotos de seus pais vestidos para o ano novo. Foi nesse ano que descobriu ser um menino politizado, reclamado pela revolução.
Desde então, comprara revistas, buscara por blogs, ouvira programas de rádio. Desde então, mudara de vida, virara vegetariano, vira as pessoas com quem cruzava nas ruas. Desde então, participara de reuniões, discutira com os irmãos por tentar mudar seus pensamentos. Ficara de castigo: quebrou a cabeça da boneca Barbie da sua irmã mais nova e colocou-a em um palito de churrasco com um papel colado nele: Contra a intromissão cultural alienante no Brasil!
Tinha 19. Olhava feio para quem o acusava de ser hipócrita por consumir produtos estrangeiros. Tatuara, então, em seu braço, o poema de Pignatari. Pare. Respire.
Era primeiro de maio. Saíra cedo de casa, feriado. Tomou banho, pôs uma roupa qualquer, calçou seus sapatos de sair. Combinou uma reunião com seus colegas no centro de São Paulo para discutir pontos de reforma da faculdade. Lá, um palanque, vários trabalhadores, um carro de som.
Primeiro de maio.
Olhou para os seus amigos. Decidiram participar. Ao ouvir as propostas do orador, gargalhou, aprovou! Reforma social, melhoras para as classes mais pobres, fim de muitos impostos, reforma agrária!
Muito barulho, muita aprovação. Os seus colegas colocavam broches que ganharam dos organizadores em suas camisetas bem passadas.
Ele se sentia estranho, saudoso, pensava em sua família, sua namorada.
Ele se sentia orgulhoso, fora um bom menino. Um bom menino. Os pais sabiam que aquilo era coisa de jovem, já haviam lutado por muitas coisas quando tinham a mesma idade do filho. Os irmãos, sabia que amavam ele, adoravam sua ajuda nas redações, adoravam seu espirito livre. A namorada...
Menina loirinha, alta, olhos azuis. Beleza americana, era cubana. Seus pais eram brasileiros, mudaram-se de novo para o Brasil há cinco anos e abriram um restaurante típico. Amava-a muito, ela o venerava secretamente. Feminista, comunista, alma irmã.
Ele se sentia estranho. Olhou pros amigos comemorando seus pensamentos sendo exteriorizados pelo orador do palanque. Adorava aquelas pessoas que havia conhecido há tanto tempo na escola particular. Olhou para suas mãos suadas, no pulso, um relógio. Marcava duas horas.
O som de cascos de cavalo se fez ouvir. Tiros. A polícia se aproximava, indício de baderneiros entre o grupo. Bancos na Paulista haviam sido quebrados, agora lojas na Sé. Tiros. Gritos, pisoteio, áudio de jornalistas nas calçadas circundantes. Os amigos correram, chamaram-no. Uma mulher passou em sua frente, uma arma apontada para si. Pulou em sua frente.
Vazio. Sem som nenhum além do sangue em seus ouvidos.
Caiu.
Passou a mão em seu peito, um buraco. O sangue escorria de seus ouvidos e ia para a garganta frágil sem amídala. Sufocava-o. A mulher estava ao seu lado chorando com um celular no ouvido. Repórteres começaram a cerca-lo, microfones na mão, canetas de tinta preta furiosas nos blocos de anotação.
O sangue chegou em seus lábios, colorindo-os com a cor que representou por tanto tempo o que tinha na mente e na alma. A mulher curvou-se sobre ele e pôs a mão em sua nuca. Falou algo. "Está tudo bem. Você vai ficar bem".
Ele sorriu, os dentes de baixo tortos que nunca consertou cobertos pelo liquido viscoso tipo A. Rh positivo.
Os seus olhos foram cobertos por uma película embaçada. Sentia-se leve, em paz.  Queria dormir.
Dormiu.