sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Quarenta e cinco: Madeiras, Irlanda e um Natal de reencontros

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Jacob andava cabisbaixo. Era véspera do Natal, mais um entre os vinte e um que vivera até aquele momento. As pessoas passavam por ele alegres e sorridentes, famílias de mãos dadas, sacolas coloridas balançando nas mãos livres, cheiro de canela e carne assada no ar.
Mais uma véspera de Natal. Mais um dia que fazia lembrar que Jacob não tinha família para dividir a ceia e presentear com balas de açúcar que desmanchavam na boca. Mas, Jacob se lembrava das balas de açúcar que sua mãe fazia três dias antes do Natal para ele e sua irmã menor comerem até que o Papai Noel chegasse com os presentes. Lembrava-se como elas eram doces e amareladas, como o brilho das luzes na árvore de Natal que montava com o pai no primeiro dia de dezembro. Ele adorava quando seu pai o levantava até a ponta da árvore para que ele, Jacob, colocasse a ponteira em forma de estrela prateada e terminasse o enfeite do objeto.
Jacob adorava o Natal desde que era pequeno. Gostava de seus avós maternos indo passar a véspera de Natal com sua família e fazendo a maior algazarra só porque sua mãe não os havia visitado todos os dias do ano ("somente nos sábados, que ingratidão!"). Gostava de seus avós levando presentes fáceis de serem adivinhados, pois se resumiam a três coisas: geleia da fruta da estação, meias tricotadas pela avó de Jacob, um brinquedinho de madeira que o avô de Jacob fazia no galpão dos fundos da fazenda dele. Mesmo que parecessem presentes simples, Jacob e sua irmã ficavam ansiosos para os receberem e disputavam para ver quem tinha a geleia mais gostosa e qual dos dois o vovô escolhera naquele ano para ganhar o lápis colorido que ele fazia especialmente para o neto que ia melhor na escola.
Jacob gostava também das comidas natalinas que sua mãe fazia e nunca reproduzia igual no outro ano. Sua mãe havia aprendido a cozinhar sozinha, porque os pais dela eram ambos péssimos culinaristas, e suas receitas carregavam muito amor, mas também muita sorte. Jacob sempre foi agraciado com a sorte de sua mãe na cozinha, principalmente no Natal, quando ela fazia peru, farofa de castanhas, calda de laranja para o tender, gingerbreads de menta para a sobremesa e um arroz com passas que ninguém conseguia reclamar da adição de uvas, porque ficava muito bom.
Com carinho, Jacob sorriu ao lembrar-se de seu pai vestido de Papai Noel no último Natal que passaram juntos. Ele tinha quinze anos e já havia percebido que seu pai era o bom velhinho há alguns anos, quando ouviu ele dizer "supimpa, supimpa" para Jane, sua irmã menor, depois de entregar seu presente. Sério, pai? Supimpa é sua marca registrada!
Foi quando tudo mudou. Ele havia ido para a escola e, quando retornou, encontrou um bilhete que informava que seus pais tiveram que se mudar para os Estados Unidos às pressas e levaram Jane consigo. Jacob sabia que seu pai era procurado pela polícia. Ele era acusado de queimar boa parte do Parlamento inglês em um protesto contra a permanência da Irlanda no Reino Unido. Seu pai era irlandês, ele fazia parte de um grupo de manifestantes sim, mas nunca havia feito aquilo. No dia em que tudo aconteceu, seu pai estava de cama com pneumonia. Era vingança, eles fugiram. Mas, deixaram Jacob para trás.
Jacob ficou revoltado no início. Depois chorou. Tentou entrar em contato com sua família, mas eles não haviam informado o novo endereço. Jacob começou a trabalhar para se sustentar todos os momentos em que não estava na escola. Em todos os momentos em que não estava na faculdade. 
Era o vigésimo primeiro Natal de Jacob na Inglaterra. A neve caía fina, esparsa, uma chuva de lágrimas de fada. Era Natal, portanto, eram lágrimas de fadas do Natal. Jacob sorriu. Ele ainda amava o Natal e se vestia todos os anos como Papai Noel para visitar as famílias pobres de Londres e dar-lhes alegria, conforto e amor, como sua família lhe dava há mais de seis anos.
Jacob estava sorridente, sentado a esperar dar dez da noite e entrar na primeira vila que iria visitar no ano. Quando olhou para cima, viu as estrelas. Quando olhou para baixo, duas mãos pequenas. Voltou seu rosto para a criança sentada ao seu lado. Uma menininha rechonchuda que esperava sua mãe amarrar suas botas. Ele olhou para a mulher. Era Jane.
A mulher, com seus dezenove anos, já era mãe de uma garotinha linda de dois anos e estava com olhos contentes, semelhantes aos que tinha quando ganhava uma boneca de madeira de seu avô em seus primeiros Natais, quando olhou para Jacob. Ela o reconheceu. Ele a reconheceu. 
Abraçaram-se.
Foi o primeiro Natal de Jacob como tio e cunhado. O primeiro Natal em que ele foi o Papai Noel de sua família de sangue.
Ele gritou de alegria: Feliz Natal, Londres!

7 comentários:

  1. Ah Bruna, esse seu conto me fez ficar triste pelo que aconteceu com o Jacob e muito feliz depois, aqueceu meu coração e deixou no ar aquele clima natalino!

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    1. Ah, Bia, fico feliz por você ter gostado do meu conto de Natal ao final da leitura... Eu comecei ele bem diferente e gostaria de termina-lo dessa forma também, mas acabei seguindo por um caminho mais confortável para mim. Mas, prometo me desafiar mais nas próximas vezes para sempre entregar a vocês coisas boas de se lerem...
      Obrigada por tudo, miss Bia!
      Feliz Natal <3

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  2. Que linda postagem, parabéns!
    Amei a fotografia. O texto ainda vou ler com calma.
    Feliz Natal! :)

    cartasdagleize.blogspot.com

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    1. Obrigada, miss Gleize!
      Feliz Natal, espero outro comentário sobre o texto agora.
      Beijos.

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  3. Li o conto! Parabéns, Senhorita Bruna, eu só venho a confirmar o quanto você escreve bem! Continue assim e com mais textos bons como este em 2018, certo?!
    Beijinhos e boas festas! :)

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    1. Obrigada de coração, miss Gleize.
      Tudo de bom para você, minha amiga, obrigada por conhece-la em 2017, desejo que possamos trocar mensagens carinhosas ainda mais no ano que vem.
      Boas festas. Beijos açucarados.

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  4. Obrigada por me chamar de amiga. Fiquei tão feliz... Seu blog é de inspiração para mim. Adorei te conhecer neste ano que já se vai.
    Boas festas e feliz 2018, Bruna!

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